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Vota uma, votam todas!

por naomedeemouvidos, em 21.02.19

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Carolina Beatriz Ângelo

 

“Acreditamos que uma grande maioria das mulheres não quer votar. Elas irão evitar ir às mesas de voto nos dias das eleições e irão preferir ficar em casa a cuidar das suas tarefas domésticas".

 

As mulheres votaram pela primeira vez a 19 de Setembro de 1893, na Nova Zelândia e foi preciso chegar a 2011 para que a Arábia Saudita permitisse o voto às suas mulheres.

 

Em Portugal, Carolina Beatriz Ângelo foi a primeira mulher a exercer o seu, mais ou menos, direito de voto: tinham, à época, direito a votar «cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família», assim dizia a primeira lei eleitoral da República Portuguesa. Ninguém se terá lembrado que um chefe de família pudesse ser uma mulher, que disparate, de modo que, para acabar com os abusos, a partir de 1913, o regime republicano lá especificou que apenas “os chefes de família do sexo masculino” podiam votar, ou ser eleitos. As mulheres, algumas, só voltariam a poder exercer esse direito em 1931 – nas eleições para as juntas de freguesia: “mulheres portuguesas, viúvas, divorciadas ou judicialmente separadas de pessoas e bens com família própria e as casadas cujos maridos estejam ausentes nas colónias ou no estrangeiro”. Mais tarde, “os portugueses do sexo feminino, solteiros, maiores ou emancipados, com curso especial, secundário ou superior, comprovado pelo diploma respectivo” também passariam a gozar desse privilégio.

 

Nos dias que correm, não sei se não estaremos a desprezar, de forma grotesca e perigosa, um direito que, não tendo sido sempre de todos, tanto custou a alguns.

Não imagino o que é ser impedida de votar, como não imagino o que é viver amordaçada, privada dos meus direitos e liberdades, privada de mim, como, infelizmente, ainda acontece em tantos cantos obscuros do mundo (se calhar, acontece em cantos obscuros mesmo aqui ao lado, debaixo do nosso nariz, há muitas formas de arrancar alguém de si mesma/o).

 

Os sistemas eleitorais democráticos surgiram, precisamente, para garantir a soberania do poder que reside no povo. O nosso permite converter votos em mandatos pelo método de Hondt, que dá uma ligeira vantagem ao partido mais votado. Não é perfeito (até há quem diga que é antidemocrático...) porque isso é coisa que não existe. E até vimos nascer uma geringonça, mas, no caso, a culpa não foi totalmente do Hondt, coitado.

A escolha desse tipo de sistema é fundamentalmente política, não há uma resposta certa ou única. Aporta efeitos previsíveis, como também, consequências totalmente imprevistas e absolutamente espantosas, veja-se o caso dos EUA. A forma como escolhemos os nossos partidos, os nossos candidatos, os nossos representantes, tem influência directa no nosso modo de vida. Desconsiderar a responsabilidade de cada um na participação dessa escolha, nomeadamente, pelo exercício do direito de votar é um luxo a que não nos podemos permitir. Não acredito na obrigatoriedade do voto, mas, creio ser urgente estabelecer uma ponte entre dois extremos, se quisermos preservar esse pior regime político, com excepção de todos os outros. A mim, pessoalmente, não me apetece ficar em casa a tratar de tarefas domésticas




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