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O Estado, somos nós?

por naomedeemouvidos, em 22.01.19

    Eu gosto de citações. Concordando-se, ou não, com os autores, pelo menos, dão-nos a oportunidade de pensar e de discutir. De duvidar. Começo por uma tão conhecida que que se tornou uma espécie de clássico: “a democracia é a pior forma de regime, com excepção de todos os outros”. Não carece de assinatura, até porque, eventualmente, terá sido outro o autor original…na verdade, it has been said…”. Mas, isso é de somenos.

    Nos últimos tempos, temos assistido a uma certa degeneração, vou chamar-lhe assim, das virtudes desta forma de governo. Assusta-me que possa estar, como outrora, em declínio, de algum modo novamente ameaçada, porque parece-me haver, realmente, maior justiça num regime em que o povo tem o enorme poder de designar o governo e o poder legislativo por sufrágio livre e igual. Mas, o poder de que gozamos, enquanto povo, reveste-se de tremenda exigência e de minucioso labor. Distribui direitos, porém, também demanda incontáveis e incontornáveis deveres que, se levados a sério, vão além de praguejar – com imensa vontade e maior razão, tantas vezes – contra todos os que se aproveitam das vantagens da democracia, declinando as suas imperfeições sempre e quando convenha. E não convém sempre o mesmo a toda a gente, muito menos, no mesmo instante. A democracia, agora, faz-se de instantes. De repente(?), abriu-se um vazio abismal entre os valores que a democracia defende e a indiferença com que esses mesmos valores são estropiados, todos os dias, uma miserável catadupa de atropelos, onde a liberdade e a igualdade vão sendo moldadas, deturpadas, ao sabor de cada momento. Outros valores mais altos se levantam, prontamente e em contra-mão.

    Talvez a democracia nos falhe porque não somos exigentes o suficiente. Com ela; e, por arrasto, connosco. Como se, compactuando com a fraude do próximo, ganhássemos, nós próprios, o direito à complacência para com a nossa própria fraude. Uma espécie de troca-por-troca viciada e bolorenta. Resignamo-nos por ignorância ou por comodismo? Insurgimo-nos contra o abuso por princípio ou por despeito, se dele não podermos usufruir? Ou, talvez, apenas nos tenhamos habituado a olhar a política como algo peçonhento. Como se nada pudesse ter de belo. Enjeitamo-la pelo nojo com que a vemos esventrada e submissa a vontades viciadas e indigentes. Não sendo possível suspender a democracia quando convém, aceitá-la implica regras, e há regras que custam a cumprir. Exigem algum grau de sacrifício e, por vezes, umas gotas de hipocrisia a que, elegantemente, chamamos diplomacia. Terá, aquele, deixado de ser o melhor de todos os regimes? O que conta mais, no momento de decidir? E o que estaremos dispostos a sacrificar, nessa procura de um melhor Estado, de coisas, de causas, de governo?

    A imposição de um desastrado, e adulterado, politicamento correcto, que nos tornou refém das palavras e minou os debates políticos e sociais, esvaziou-nos, ao mesmo tempo, da capacidade de pensar e de duvidar. Pior. Ameaça deixar-nos tomados pelo medo, encolhidos, entregando, porventura, com alívio, o nosso poder de decisão a outros, que ousem assumir as rédeas das nossas fragilidades, como sociedade, guiando-nos como cordeiros em dia de procissão...

 

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36 comentários

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De Gaffe a 22.01.2019 às 09:19

É interessante perceber como estou em desacordo com a minha companheira de aventura em relação ao politicamente correcto
Com certeza discutiremos este assunto, mas não deixo de referir desde já que ser-se politicamente correcto me merece imenso respeito. A minha interpretação do conceito é, digamos, politicamente incorrecta. 
Lá chegaremos, não é verdade?
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De naomedeemouvidos a 22.01.2019 às 12:16

E é bom estarmos em desacordo! Penso que chegamos sempre mais longe se não pensarmos todos da mesma maneira. Ainda assim, neste caso em concreto, tenho dúvidas sobre o nível de discordância, já que me referia ao nível do absurdo na utilização de "linguagem com pinças", e não ao respeito que se pretende e que se exige na interacção com o outro e que deve estar na base do "politicamente correcto" que também prezo.
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De Gaffe a 22.01.2019 às 15:01

Afinal a discórdia não é grande.
Acredito piamente que o condenado politicamente correcto tido como ofensivo para quem se habituou a sujar o que quer que seja e quem quer que seja, em nome da liberdade de expressão, é também a consciência desperta do Outro, e da impossibilidade de o referir de forma humilhante. Normalmente, o Outro é uma minoria.  
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De naomedeemouvidos a 22.01.2019 às 12:17

E que bom também nos encontrarmos por aqui!
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De Gaffe a 22.01.2019 às 15:01

Muitíssimo bom.
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De mami a 22.01.2019 às 10:46

Acredito, honestamente, que o hábito de muitos de especialistas em lamberabismos, os politicamente corretos que nada dizem e outros que devem favores que lhes permitiram atingir determinados lugares, faz com que todo o processo esteja de tal modo adulterado que faz com que a desconfiança e o desinteresse popular seja crescente
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De naomedeemouvidos a 22.01.2019 às 12:19

É, precisamente, a essa adulteração que me refiro. E é verdade que, por vezes, não é muito fácil distinguir.


Também é bom encontrar-te nesta aventura!
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De Pedro Vorph a 22.01.2019 às 15:14

l
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De Corvo a 22.01.2019 às 15:31


Boa tarde.
Quando a senhora diz que " esvaziou-nos, ao mesmo tempo, da capacidade de pensar e de duvidar." está certa, porém criou-nos uma capacidade incomparavelmente maior às descritas, ou a quaisquer outras conhecidas ou imaginadas. A de aceitar e acarretar. No fundo não foi o nosso voto que lá o colocou?
   - Ah e tal, eu não votei nele.
   - E daí? Ó inteligente! Não votaste tu votou o outro, e não é por isso que está mais contente do que tu. Cala-te e civiliza-te que para burro já chegou o tempo da outra senhora. Aliás, para lá de não poderes fica-te muito mal essa gritaria. Segue os bons exemplos educacionais civilizacionais e sê politicamente correcto.
   - E o que é isso?
   - É ir com os da feira e vir com os do mercado.
Cumprimentos e resto de excelente dia.
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De Pedro Vorph a 22.01.2019 às 15:53

E se o abstencionismo resultar da falta de representatividade partidária/política? Duvido que algo de significativo mudasse caso o voto fosse obrigatório.
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De Corvo a 22.01.2019 às 16:25


Claro que sim! nada mudava
Sucederia que os papéis se inverteriam e os defraudados trocariam de posição com os desanimados.
A outra parte, a meia dúzia de contentes. Esses estão sempre realizados qualquer que o Governo seja. Nada muda e o ouro dita a lei.
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De Sarin a 25.01.2019 às 01:07

Concordo até determinado ponto que desenvolvi num outro comentário; mas como resolvemos a questão dos descontentes, dos auto-alienados, dos defraudados?
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De Sarin a 25.01.2019 às 01:04

E se em vez de abstencionismo lhe chamássemos absentismo?
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De naomedeemouvidos a 22.01.2019 às 18:20

Suponho que, pelos menos, alguns direitos, como a sorte, dêem algum trabalho para que deles se possa dispor plenamente.


Para si também. É um prazer vê-lo por cá.
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De júlio farinha a 22.01.2019 às 21:58

Não, não me dêem ouvidos, o meu Estado não é este. É aquele que se afirmou, ao longo dos tempos, pela vontade e opinião mais ou menos pouco esclarecida da maioria. Sabemos que a qualidade das instituições depende da vontade daqueles que as permitem e sancionam pelo voto ou pelo silêncio.
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De naomedeemouvidos a 22.01.2019 às 22:31

E o voto é uma arma tão poderosa. Por que motivo se abdica dele tão facilmente?
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De Sarin a 25.01.2019 às 01:02

O nosso Estado não é este, mas é com este que temos que lidar. Foi este o estado a que chegámos, ainda não tão mau como antes, mas já esteve melhor no que a liberdades e garantias respeita.
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De cheia a 22.01.2019 às 22:20

Para mim, o abstencionismo resulta de muitos fatores: falta de exemplo, distanciamento, representatividade, desigualdade …….
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De naomedeemouvidos a 22.01.2019 às 22:38

Tento sempre pensar no que seria se eu não tivesse esse direito. Se tivermos mais consciência cívica, sempre conseguimos mudar a forma como nos vêem, como sociedade. Às vezes, não parece, é um facto.
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De cheia a 22.01.2019 às 22:48

Teria de se sujeitar, como eu me sujeitei. E, ainda por cima, na tropa, obrigaram-me a recensear, como não tive ordem de votar, devem ter votado por mim.
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De Anónimo a 22.01.2019 às 23:00

Mas, agora, que posso votar em meu nome, quero agarrar esse direito com unhas e dentes. Não tenho o que é preciso para fazer “revoluções” e mover vontades, a não ser que possa continuar a pôr lá aquela cruzinha, ou apenas dobrar aquele pedaço de papel e depositá-lo com o meu simbólico protesto. Não acho que o voto deva ser obrigatório, mas gostava que o tratássemos melhor.
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De cheia a 22.01.2019 às 23:06

Não sei se não deveria ser obrigatório. Temos direitos, mas, também temos obrigações. Um ato eleitoral fica-nos muito m caro, e o nosso dever é participar.
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De naomedeemouvidos a 22.01.2019 às 23:20

Temos obrigações. Subscrevo!
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De Sarin a 25.01.2019 às 00:53

Concordo com a obrigatoriedade. Mas apenas quando estiverem reunidas condições para que o voto possa ser exercido de forma mais expedita - urnas distintas para eleitores distantes da sua mesa de voto, com mecanismo para avisar a respectiva mesa com 24h de antecedência e assim poder validar o voto noutro distrito, ou em hospitais, por exemplo. A usar inicialmente por motivos específicos e devidamente identificados, não apenas porque apeteceu ir dar uma volta :)


Depois disto, sim, multa ou perda de regalias facultativas (nunca de liberdades e garantias!) - suspensão do acesso a incentivos estatais durante o tempo correspondente ao mandato a cuja eleição não compareceu, por exemplo.
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De naomedeemouvidos a 22.01.2019 às 23:03

E o anónimo sou eu, destrambelhada...
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De Sarin a 25.01.2019 às 00:35

Caro cheia, prefiro chamar-lhe absentismo eleitoral.
Na abstenção democrática, o cidadão coloca-se de lado na escolha. Vota em branco. E aqui a abstenção tem um claro significado político.
Na nossa abstenção, o cidadão não se coloca de lado na escolha - a escolha passa-lhe ao lado, pois nem sequer se manifesta. Ausenta-se da urna de voto, falta no voto, falha no seu dever - é absentismo.


Não me vou alongar no tema, pois a ele voltarei noutro holofote; mas não quis deixar passar o seu comentário sem esta achega.
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De P. P. a 22.01.2019 às 23:10

 
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De naomedeemouvidos a 22.01.2019 às 23:22

Olá, P.P.!


(Anima-te, vá!)
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De P. P. a 22.01.2019 às 23:37


Não está fácil.
Preparo-me para nova perda. Mas resistirei.
Bjs
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De P. P. a 23.01.2019 às 17:56

Obrigado.
Hoje, às 11h deu-nos o seu último adeus.
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De naomedeemouvidos a 23.01.2019 às 21:37

Repito-me, mas lamento muito. 
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De Sarin a 25.01.2019 às 00:38





reenviado. talvez que uma forma de distanciamento da dor.
beijos
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De Sarin a 25.01.2019 às 00:27

Não podia concordar mais! E que excelente texto de abertura! :)


Apenas um ponto: não escolhemos o poder executivo central, o governo. Ao contrário do que fazemos nos municípios, onde votamos quer o poder executivo quer o poder legislativo.
O governo central é formado pelo chefe do partido mais votado ou que consiga acordo com os outros partidos, seja um acordo de governo (tradicional, em que o programa de governo é negociado e o os ministérios são distribuídos por negociação entre os partidos que o constituem) seja um acordo parlamentar (como o actual, em que o compromisso incide essencialmente na matéria legislativa e nas linhas gerais do OE, e que por isso não inclui partilha da governação).
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De naomedeemouvidos a 25.01.2019 às 15:57

Já chego aqui tarde...não estou habituada a esta coisa dos comentários...dá uma trabalheira :)


Bom, para que conste, quanto ao suposto texto de abertura, fui enganada. Pensei que, 8.01 ó-cloque todos íamos publicar qualquer coisita, tipo natação sincronizada. Logo eu, que nem sei nadar, atirei-me de cabeça...
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De Sarin a 25.01.2019 às 18:20

Foi um belíssimo mergulho :D




E, quando oportuno, poderias navegar nos meus comentários? Deixei-te por aqui algumas questões :)

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