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L’État c’est moi

por Gaffe, em 24.01.19

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Agrada-me sobremaneira continuar a pensar que é realmente de Luís XIV o celebérrimo L’État c’est moi.  

Soa bem, se acompanharmos o dito de uma imensidão de folhos, cabeleiras empoadas, poeira branca nos rostos e jabots apunhalados por alfinetes luzidios. Soa sobretudo a decapitação posterior e inevitável do descendente do Sol e da sua amantíssima e fascinante rainha.

Cravar desta forma na pedra da história - real ou de boca a boca popular - a certeza da posse de um povo aparentemente submisso, soa a campânulas, a redomas, a bolhas de poder que são de ar apenas, insufladas por condenáveis egos, desmesuradas ambições e trágicas ilusões e crenças no divino.     

Basicamente não passa da inconsciência, da indiferença, do sentido de impunidade, e eventualmente do desconhecimento de alguns da demolidora força de reacção que provocam naqueles que de forma contínua são espezinhados e espoliados.

Chamar-lhe-emos Síndrome de Marie Antoinette, porque é um esplêndido nome para usar e para ousar, tendo em conta que Marie Antoinette, rainha dos franceses, ignorou por completo - e de forma dir-se-ia inqualificável e impensável, caso não se contextualizem os acontecimentos - a miséria, o estado de indigência, a fome e a fúria do povo de que supostamente era soberana por direito divino.

Quando a multidão de esfarrapados e de miseráveis armados arrombou os portões de Versailles, Sua Majestade veio saudar os súbditos, espantada por os ter ali tão perto, e só entendeu verdadeiramente o que se passava quando se viu privada, de forma muitíssimo real, da coroa que viria apensa à sua cabeça cortada.

Nenhuma revolução, a não ser talvez esta, a francesa, teve origem no povo.

As revoltas cozinham-se nos corredores ou caves de elites ou grupos com algum significado ou capital cultural, económico, social ou simbólico que atiram um pavio inflamável para as ruas que, por sua vez, o povo se encarrega de incendiar.

Parece-me claro que há evidentes indícios que levam a crer que a Síndrome de Marie Antoinette se instalou nos que governam hoje o planeta. Distanciados daqueles que dizem orientar e civilizar, olham nos monitores omnipresentes os gráficos que por sua vez lhes orientam as decisões.

Parecem imunes. Sentem-se impunes. Há uma espécie de redoma armada que os protege e nomeia estas criaturas de modo a legitimar os actos que aconselham as linhas dos gráficos, enquanto fazem mirrar a consciência que acaba nas margens dos monitores.

Se há areia na engrenagem, basta oferecer à gentalha a hipótese de eleições.O voto pode democraticamente alterar os sistemas, garantem. Os rostos visíveis do aborrecido fracasso, partem de férias, vão estudar filosofia ou são nomeados para governar bancos centrais. Novos manipuladores de títeres aparecem.

Não quero particularizar, apesar de o parecer neste instante. Os líderes da actualidade são, no fundo, burgueses pequenos e os pequenos burgueses são pessoas que fingem muitas vezes os seus complexos, o seu desmesurado egoísmo e ambição, sob a aparência de um idealismo que não tem em qualquer conta a realidade e os fiscalizadores dos que governam o mundo - aqueles que os deviam retratam com rigor implacável - não passam de criaturas que se enfiam, caladas e impávidas, a um cantinho de um dos poucos botes do Titanic, se lhes dizem que a sua imobilidade quase assassina lhes garante o lugar de pivot de um jornal televisivo. Ficam ilesos então os que ocupam o lugar de vice-presidente de um  Banco Central, ou os que cativam a presidência do FMI, ou os outros que lhes vão sugando as influências. 

Não me interessa, neste caso, tratar de bagatelas.

Importa mais perceber que a Síndrome de Marie Antoinette, que parece instalado há longos anos naqueles que não vão ter sequer varanda para acenar ao povo, não usufrui, como outrora, da desculpa da falta de informação para a ausência de reacção à maleita. Hoje os que reinam apercebem-se do trágico espectáculo que provocam e reconhecem o perigo. Soltam os fantasmas que conseguem e erguem os cenários de catástrofe que ajudam a silenciar ou a tentar mirrar as multidões, protegidos pelos títeres que escolheram para sustentar as ilusões do povo. Ou sobre o povo disparam.

No entanto, um factor novo vai abrindo caminho na indignação a que se assiste:

A consciência - certeira como um bisturi nas mãos do cirurgião dos reinos d’aquém e d’além-mar - que os povos adquiriram do culpado. Hoje a multidão parece saber onde a raiz da indignação está situada. Pela primeira vez ouvem-se as palavras que residem nas redomas, dinheiro, corrupção, crime branco, gritadas, cuspidas e misturadas com gás pimenta, amaldiçoadas e ameaçadas e culpabilizadas em todo o lado e apercebemo-nos, sem surpresa, que os antigos e armados guerreiros, defensores de bancos e de bolsas e de grupos, de quedas e subidas de petróleos ou de paraísos de sóis que são fiscais, são vistos como origem e alvo de uma espécie de ira solidária ou de solidária adesão à indignação.

As armas podem mudar de mão e, se isso acontecer, o povo será, pela segunda vez, responsável pela sua revolução.

 ninguém vai a Versailles arrancar a cabeça a uma rainha, até porque toda a gente sabe que já não mora lá. Está  debruçada e a acenar em todas as varandas dos governos deste mundo.  

 

Imagem - David Ho

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21 comentários

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De Pedro Vorph a 24.01.2019 às 17:02


Também do povo, se calhar mais que a Revolução Francesa, foi a Revolta das "Primaveras Árabes", com o triste fim que se conhece.


Outra mania dos políticos é fazer crer aos "miseráveis", de nós, que a culpa é nossa, só nossa, parecendo ser tal explicação bem quista dos portugueses - começam logo a olhar para o vizinho do lado que não faz nenhum e ainda recebe um "chorudo" subsidio, optando por não ver, por não querer ver, para onde vão, ou de onde veem, os que lhes afiançam tais justificações...os culpados, ora são os professores, ora os enfermeiros, ora os desempregados e algumas vezes a "peste grisalha" pensionista.
Talvez se opte por este proceder, porque é mais fácil dirigir a frustração para o vizinho que se vê todos os dias. Os outros, que verdadeiramente têm espoliado o país, vão de vidros fumados e rezam em capelas e condomínios privados, não se dando a "ver",mas apenas a ouvir.
O problema, já apontado por Marx, é a falta de solidariedade entre a massa amorfa que constitui o "povo". Ao contrário, os "burgueses", esses, nas horas de aperto, sabem bem onde devem estar e quem defender. Eles mesmos. O povo, bem o povo, que se quilhe...a bem do futuro radioso do país e das suas contas, ou das gerações vindouras, que nunca chegam…"E eu hã!? Também queria ser feliz", bolas.
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De Gaffe a 24.01.2019 às 20:22

"Viver acima das nossas possibilidades", convenceu bastante bem um povo que não percebeu que quem vivia acima das nossas possibilidades, arruinando demasiadas hipóteses de nivelar e atenuar abismos sociais, ainda não está preso.
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De Sarin a 25.01.2019 às 04:40

Para alguns tais crimes já prescreveram, para outros atarda-se a coisa para dar tempo para prescrever.


O problema da mudança de mãos das armas é apenas um: que mãos, essas novas?
Temos parte da humanidade a mostrar-nos como as armas mudam de mãos, como os regimes são voláteis e como cada um pode ser mais impiedoso do que os que o antecederam... os recursos, mais do que as armas, é que terão de ser recuperados, entre eles o recurso à auto-avaliação e à auto-consciência.
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De Gaffe a 25.01.2019 às 09:27

Recursos escassos aqueles que refere. 
São como animais em vias de extinção. Ou os protegemos, ou somos entregues aos desertos. 
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De Sarin a 25.01.2019 às 10:47

Desertinhos estão alguns para que não protejamos tais recursos... mas não pensam na aridez do longo prazo, que se lixe, nem estarão cá...
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De Gaffe a 25.01.2019 às 14:04

Implica esse facto, a necessidade de os substituirmos com rapidez. 
:)
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De Sarin a 25.01.2019 às 14:49

Sem dúvida, Mlle, sem dúvida :)
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De Anónimo a 25.01.2019 às 01:07

A farsa nacional chegou a este impudor de não se admitir que há culpados, de não se obrigar os devedores a pagar, de não se sujeitar os “bons” gestores abusadores a devolver os prémios recebidos.

Reconhece-se, isso sim, que “os portugueses viveram acima das suas possibilidades” ignorando que são esses portugueses vergonhosa e descaradamente extorquidos, através dos seus impostos, que alimentam este regabofe e patifaria, que prevejo virem, não tardará muito, já regulamentadas em Diário da República.

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De Gaffe a 25.01.2019 às 09:26

É assustador o que prevê.
No entanto, Maria Antonieta  acenou durante muito tempo à varanda... 
Depois foi surpreendida, de repente. Ficou sem cabeça. Não contava. Comia brioches.
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De Maria Araújo a 25.01.2019 às 12:24

Somos permissivos... até um dia.
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De Gaffe a 25.01.2019 às 14:03

Normalmente esse dia é tenebroso e sangrento. 
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De Anónimo a 25.01.2019 às 14:14

Completamente de acordo, Gaffe.
E depois, incrédulos hipócritas os que nos governam, com evidentes indícios da síndrome de Marie Antoinette, irão surpreender-se ao perceberem que o povo, um dia, é todo de Vale dos Chicharos, não pelo tom de pele, mas porque não come nem os brioches nem o pão a que tem direito ...


Leanor
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De Gaffe a 25.01.2019 às 15:25

A visão é catastrófica, mas suponho que acontece quando a história tem de ser recriada,  quando é urgente uma nova versão. Já aconteceu outrora. 
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De Sarin a 25.01.2019 às 18:10

Não a supunha disposta a pegar na pena e picar os ombros de quem a porta obstrói :)




Defendo a revolução, sim, mas de posturas, não de posições - desconfio que apenas se trocariam chinelos Louboutin por galochas Jimmy Choo.


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De Gaffe a 25.01.2019 às 19:11

Muito interessante.
Quase "bruxo". 
Sinto-me tantas e tantas vezes a criatura que está a obstruir a porta. E não sou masoquista e suponho que tem razão também quando diz que as minhas galochas seriam Jimmy Choo.
Será que é assim tão irredutível o muro que a nossa redoma tem em redor? Será que se tornou intransponível o traço que desenhamos à nossa volta?
Será que o "caviar" vicia a mão que não escreve?
:)
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De Sarin a 25.01.2019 às 19:29

Se o entendesse irredutível dedicar-me-ia a bordar linhas e não frases... mas o caviar, não sendo adictivo, é um gosto adquirido... a mão ganha papada.
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De Gaffe a 26.01.2019 às 00:00

Brel...
Não é justo!
Fico derrotada logo no primeiro acorde.
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De Anónimo a 27.01.2019 às 14:00

"O burguês é como o porco: quanto mais velho mais se torna besta" (Tradução livre)
Temos que o comer enquanto é leitão.
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De Gaffe a 27.01.2019 às 22:13

Leitão...
É talvez o único prato da gastronomia portuguesa que não consigo tragar.
Logo ali ao lado da lampreia.
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De Anónimo a 27.01.2019 às 16:03

O autor de O Capital disse que a história se repete.Primeiro como tragédia e depois como comédia. Novas condições subjectivas e objectivas requerem um novo modelo embora inspirado no primeiro.
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De Gaffe a 27.01.2019 às 22:14

Quando refere o primeiro, está a falar na tragédia?

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