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Dizem que todas as meninas são princesas, e tê-lo-ei sido para avós e pais babados, primos mais velhos e vizinhos cuidadosos. Mas durou pouco tempo o reinado, pois cedo se percebeu que tinha mais estilo de parlamentar do que de princesa - tendo mesmo parlamentado alto e bom som canções que eram armas mas cuja letra mal falava, quanto mais entendia, a rosalina a ir à praia era mais bonita do que a leonor na fonte e uma gaivota é uma gaivota. Portanto, princesa, mas pouco; e mesmo então, já então, agia como republicana. E por isso....

 

Sempre me assumi republicana. Porque sempre gostei da ideia de o nosso representante maior, o chefe máximo do nosso Estado, do nosso país, ser escolhido por todos e ter um tempo limite para nos representar.

No entanto, venho observando como nas monarquias europeias o sentido de unidade se mantém, apesar das asneiras que as famílias reais fazem - e que não deixam de ser notadas, apontadas e até julgadas quando crime.

E comparo com o meu país, onde o poder do chefe de estado pouco difere do detido pelos monarcas europeus, onde as despesas da presidência podem ser absurdas e o presidente não pode exercer uma profissão nem fazer voluntariado, e onde as asneiras que cometa no exercício do cargo estão salvaguardadas pela imunidade política - que em Portugal não é levantada porque o corporativismo político é uma instituição, a abordar noutro postal.

 

Em miúda não percebia que as monarquias podiam ser democracias, o que é natural pois contavam-me histórias de reis e princesas nas quais até os plebeus poderiam alcandorar-se a lugares de chefia, mas sempre como príncipes e reis, e os reis é que mandavam, desde servir o almoço até cortar cabeças... A Inglaterra era país apenas conhecido por pátria do Benny Hill e dos Malucos do Circo, assim era esse o nome dos Monty Python Flying Circus, e as outras monarquias eram inexistentes porque em países longínquos, já que Espanha saía da cauda do Caudilho e da Dinamarca conhecia de ouvido um cavaleiro que andou pelo mundo e pelo livro de Sophia de Mello Breyner Andresen.

Tudo mudou na minha percepção quando comecei a ler. E a perguntar o que significava exactamente aquilo que estava a ler: Margaret Thatcher arranjadinha, a mandar mais do que a Rainha? Sebastião José de Carvalho e Melo que meteu D. José num chinelo? E a Espanha, governada por um Primeiro tendo de novo o Rei no poleiro? Percebi que uma coisa era uma coisa e outra coisa era outra coisa, embora só mais tarde tenha percebido que os regimes não dependem das formas de governo, vezes até que nem da vontade dos governados.

Se tudo mudou na percepção, não mudou na convicção. E mantive-me republicana porque sempre gostei de ter uma palavrinha a dizer sobre a minha vida, mesmo sobre aquela parte que pouco ou nada domino - e ainda não podendo votar, sabia que chegaria o dia em que a caneta seria minha, seria minha a oportunidade de fazer uma cruz naquele tão valioso papel que apenas conhecia da televisão.

Há mais de metade da minha vida que gozo do privilégio de ter o direito e o dever de usar tal caneta e de colocar tal cruz. Privilégio porque sou, somos, das poucas pessoas que votam livremente neste mundo de quase 9 biliões de seres humanos. E nessa mais de metade da vida mantive-me republicana.

 

Mas... (ei-lo!)... chega um momento em que questionamos os paradigmas, em que as certezas que julgámos absolutas se revelam incertas, em que os pilares das nossas fundações abanam debandam caem com estardalhaço, os fragmentos espalhados fugindo-nos para todo o lado. Se tal momento não chega devia chegar, porque as peças depois encontradas e coladas são muito mais fortes e o quadro fica muito mais inteiro sólido certo para cada um de nós.

Esse momento chegou quando percebi que as funções do nosso Presidente são meramente simbólicas, representativas e nada executivas, ou pouco mais que meras formalidades. Como os monarcas de outros europeus, mas vendendo muito menos livros e bibelots reais e coisas que tais. Questionei-me seriamente se um país não estaria mais bem representado por uma linha dinástica, que de alguma forma cola as várias épocas da história, do que por um cidadão eleito pelos outros.

Os monarcas são educados para a função, aprendem o protocolo no berço, simbolizam o país pela coroa, embora esta consagrada a N. Senhora da Conceição, história que fica para outro dia, e simbolizam o país pelo sangue, pela ligação aos ancestrais governantes e, por estes, aos ancestrais governados. Símbolo por Símbolo, têm a vantagem da história e da educação de berço.

Os cidadãos eleitos... não há uma escola para presidentes, o que não é de estranhar pois a Escola para os cidadãos está programada para ensinar matérias curriculares mas pouco preparada para educar para a cidadania. Não aprendendo em crianças, somos os cidadãos que conseguirmos ser em adultos. Portanto, um cidadão que seja presidente aprende a ser ambos, cidadão e presidente, pelo seu próprio pulso.

Um representante educado para o ser, um representante auto-didacta.... educados, sim, mas será que bem preparados? Incerteza pertinente, pois dependerá sempre da personalidade de cada um, como a história nos demonstra.

E foi aqui que percebi porque sou o que sou, ainda antes de saber que esta palavra existia: meritocracia! Como posso eu, admiradora do mérito, defensora do valor e do esforço, defender que o meu país, eu, tenhamos como Chefe de Estado alguém que apenas o é porque filho de alguém, como posso aceder a que sejamos representados por alguém que assume tal missão apenas porque lhe calhou em herança? Nas empresas públicas e privadas chama-se nepotismo e é considerado muito pouco dignificante. Calma, no Estado há outros factores a considerar, como o nacionalismo... e volto a travar: serei menos nacionalista, gostarei menos do país onde nasci e sempre vivi, e cujas fronteiras neste rectângulo de península se mantêm quase inalteradas há quase um milénio, apenas porque entendo mais digno de nos representar um cidadão escolhido pelos seus concidadãos, do que um monarca que o é apenas porque há 1000 anos um seu tataravô, seu e de metade do país, se corou Rei de Portugal? Claro que não, a geografia do meu país, a orografia, o sol e o mar serão estes com rei ou com presidente, e a história não foi feita só por reis, foi feita por todos, e se apenas os reis ficaram na história foi porque teriam quem lhes escrevesse o nome.

Desisto de tentar ser monárquica. Por mais voltas que dê, choco sempre na arbitrariedade da coroação dos primeiros reis, os machos alfa de então que então instauraram linhagens. Contra as quais nada tenho, apenas não quero os seus membros como meus representantes apenas e só por serem descendentes de quem são. Enfim, fui fraca princesa mas sei que sou sólida republicana.

E se houve há haverá presidentes mal preparados para a missão que lhes confiamos é porque nós cidadãos estamos também mal preparados para os escolhermos ouvirmos acompanharmos sermos. Não temos que desistir, apenas melhorar.

 

Esta é a minha opinião. Gostava de ouvir a opinião dos meus concidadãos... num referendo, sim, gostaria de referendar esta questão. Porque o regime e a forma de governo são as pedras angulares da nossa nação enquanto Estado de Direito.

Mas os referendos têm um problema - o referendo é uma manifestação do cidadão. Se o cidadão não debate e não questiona, torna-se um alvo fácil da manipulação, transforma-se num portador do voto do outro e não num votante de direito próprio e de escolha pessoal... e isto é debate para outro postal.

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14 comentários

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De Cecília a 22.01.2019 às 16:06

tem graça que é por isso mesmo que para desagrado de muitos que se acercam das minhas filhas com o " olá, princesa" eu, sorrindo, digo que elas não estão habituadas a isso porque nasceram filhas de republicanos. 


o ar-ponto-de-interrogação das pessoas é incrível. 
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De Sarin a 22.01.2019 às 16:19

Trataram-me como princesa, não me chamavam princesa - e certamente educaram-me para questionar. À minha sobrinha, entre fatos de princesa não faltam as noções republicanas. Tem 6 anos, vai orientada ;)
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De Pedro Vorph a 22.01.2019 às 18:38


Sarin, o Presidente é uma modernidade antiga, bem patente no poder "real", de na época do Natal, conceder indulgências reais. Quanto à democraticidade dos altos cargos da Nação vê de onde provêm a maioria dos Apelidos - da burguesia feita, no final de XIX, nobreza….também nas monarquias, antigas, existia um culto pela meritocracia - Newton, Hobbes, Thomas Moore, Shakespeare, Thomas Cromwell...tudo gentios apadrinhados pelos poderosos



Bom postal
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De Sarin a 22.01.2019 às 18:44

Mas os antigos reis apadrinhavam e desapadrinhavam com a mesma velocidade, Cromwell que o diga... e faziam-no investidos pela consanguinidade, não pela bravura ou por qualquer capacidade própria.


Prefiro escolher quem dá o indulto; mesmo que não seja o por mim escolhido, tem 5 anos para me convencer e 10 anos para fazer asneira ;) 
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De Pedro Vorph a 22.01.2019 às 18:48

Os "desapadrinhamentos" também surgem nos Partidos, embora os métodos sejam mais "civilizados"....
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De Sarin a 22.01.2019 às 20:09

Sim, mas ainda vou na questão da forma de governo, da chefia de estado ;)


Os partidos merecem-me alguns postais, acredita - política para mim tem que ter transparência, objectivo comum, mérito.
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De cheia a 22.01.2019 às 21:21

Referendo: pau de dois bicos. Republicano, sempre.
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De Sarin a 22.01.2019 às 21:25

O referendo é mesmo uma ferramenta que requer muita discussão pública, e não convém ser usado levianamente...
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De júlio farinha a 22.01.2019 às 22:23

Gostei da descrição histórica da evolução das suas convicções. Nunca me deu para me inclinar para a monarquia por causa do problema da consanguinidade. Também tenho duvidas sobre o republicanismo. Ultimamente tenho pensado, talvez em excesso, no despotismo esclarecido. Teremos oportunidade de aclarar isto. 


Post brilhante!
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De Sarin a 22.01.2019 às 23:06

As minhas convicções não mudaram, solidificaram por todos os argumentos que lhes fui tentando opor ao longo dos tempos, num exercício de advocacia do Diabo... talvez me façam mudar, mas para a monarquia é pouco provável. Há mais formas de governo e muitos regimes sobre os quais nunca pousei a lupa, venha o teu postal ;)
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De naomedeemouvidos a 22.01.2019 às 22:27

Republicana, de alma e coração. E, ultimamente, com muito medo de referendos...
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De Sarin a 22.01.2019 às 23:11

Republicana sempre e cada vez mais. Nos referendos, sempre a mesma dúvida, ou dúvidas - um adulto um voto, sim, mas seremos adultos todos os que votamos? E quem nos avalia a maturidade?!


E agora vou-me a ler com atenção os colegas ;)
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De mami a 24.01.2019 às 04:18

são nesses pequenos papeis, onde uma caneta e um x valem mais do que no jogo do galo 


"arbitrariedade da coroação dos primeiros reis, os machos alfa" - sendo machos alfa, teria sido assim tão arbitrário? não terão eles tido mérito ao se destingirem - pela força ou coragem? pela dedicação ou desprendimento?

não há no sufrágio universal uma certa arbitrariedade? não vão todos a votos, apenas os que se propõe. e não serão estes "machos" (porque as fêmeas nem vê-las) alfa?
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De Sarin a 24.01.2019 às 09:35

Pouco mais valem, mami, e há quem praciocine mais no jogo do galo do que quando vota 




O nosso Afonso Henriques teve todo o mérito! E foi muito bem coroado! Os outros que lhe sucederam tiveram méritos, alguns até tiveram mais deméritos que juízo, mas embora tenham tido importantes conquistas, apenas lhes foi dado o poder por serem descendentes de Afonso.
E, mesmo entre estes, houve um ou outro que destronou o irmão ou o tio - sempre lutaram pela posição, mas por motivos muito deles... e por serem netos de Afonso!
Na Escócia, nesta mesma altura, o chefe do Clã podia ser desafiado por qualquer um dos seus membros. E todos os clãs participavam na escolha do Rei.


Costumes de então :)




"Apenas os que se propõem" nada há de arbitrário nisto, implica uma decisão pessoal - e um apoio mínimo dos seus pares, nas listas partidárias ou nas candidaturas individuais. Não é uma imposição, é uma escolha ;)

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