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Era uma vez, uma Democracia...

por Sarin, em 23.01.19

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... que chegou a um país que dormia embalado a ferro e fogo.

Libertada do que a sufocava, instalou-se suavemente, com o ruído próprio de quem se sabe cheia de bagagem, demasiada bagagem para o silêncio em que, dolentes, a aguardavam sem saberem bem como seria.

Pensavam-na leve, e apareceu carregada de malas. Tantas malas tantas, abertas quase em simultâneo, os tesouros espalhados para todos verem, para todos admirarem, para todos usarem: liberdade de expressão, direitos, voto, plebiscito, deveres... tudo isto foi saindo desordenado daquelas malas, malões de porão onde todo um povo cabia e se perdia entre exclamações de admiração. As novidades passaram de mão em mão, rápidas, rápido, temos pressa...

 

... Talvez demasiada pressa, e tal foi a pressa e tão depressa  que nem todos ouviram as explicações, e começaram a usar conforme conseguiram, "largar, nunca!" - mas se funcionaria, "logo se veria"; outros, nem chegaram a ver tudo, e deleitados com o assim já visto saíram  desconhecedores de muito mais; e aqueloutros que, achando as novidades simples, não quiseram aprender como se usavam, seguros estando de tudo terem percebido num relance.

A Democracia, entretanto, foi andando no compasso dessas gentes, pois sabia que ela, por si mesma, não vai longe, e que apenas caminha, ganha forma, força, nas mãos de quem a usa, de quem a chama sua, de quem a sua. Assim caminhando, foi gingando com o Walkman, o CD, o IPod, o telemóvel... até que, num qualquer encontrão, lhe caíram os auscultadores. E começou a ouvir as conversas "... patati patatá liberdade de expressão!" "... patatá patati meus direitos" "... blablablá deveres dele" "... ratata ratatá abstenção"... ... ... sentiu-se doente com o que ouviu. A Liberdade de Expressão a ser usada como escudo, os direitos a serem exigidos em vez de dados, os deveres a serem olvidados, e uma grande confusão quanto às fronteiras  de cada um. Cada um Princípio, cada um Cidadão. E o Estado um pouco em tudo,  o Estado inteiramente em nada.

Fenecendo, percebeu que toda aquela pressa primeira, que aquela tamanha urgência inicial, tinha criado compassos distintos entre as gentes que, descompassadas, correm agora perdidas, a boca cheia de liberdades e direitos, tão cheia que lhes escorrem pelo queixo e caem no chão, onde vão sendo calcadas pelo frenesim de quem sem rumo certo.

 

 

Este texto podia ser uma parábola. Infelizmente, é história.

Com uma Democracia com mais de 40 anos, como é que temos tanta gente a falar de direitos, deveres, liberdades e garantias sem nunca ter lido ou ouvido ler um artigo da Constituição da República ? Como é que se espera exercer a Cidadania desconhecendo as regras que a definem? Já alguém ganhou um jogo de bisca sem saber o que significa um trunfo ou quais as cartas mais altas do baralho?

Não precisamos de um curso em ciências políticas para sermos cidadãos. Mas precisamos de aprender a sê-lo para que possamos exercer uma cidadania plena - votar, pagar impostos, reclamar... acharemos mesmo que é a isto que se resume?

 

"ah, e tal, já estou velha para agora ir meter o nariz nessas coisas..." mas mesmo velha sou cidadã.

"ah, e coiso, isso dá muito trabalho..." e se trabalho para ganhar uma miséria, porque não trabalharei para ter uma participação menos miserabilista num Estado menos miserável?

"ah, mas isso não lhes interessa a eles!" sendo eles os governantes, quaisquer que sejam, e se outros motivos não houvesse, contrariá-los é um, e excelente!

Não é tarde para reclamarmos o pleno exercício da nossa cidadania. Reclamarmos a nós mesmos, exigirmo-nos aprender ou reaprender como funciona a democracia que temos. Eles têm as mesmas regras que nós - simplesmente nós não as conhecemos, e eles escreveram-nas. 

Claro que será sempre mais fácil culpá-los. Pelo que fazem, pelo que não fazem, pelo sim pelo não e pelo assim-assim, também.

Mas, e se eles forem os nossos vizinhos, os nossos familiares, nós perante os outros?

 


2 comentários

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De mami a 24.01.2019 às 04:48

não sei o porquê mas claramente há uma forte lacuna na educação para a cidadania.
um país muito pobre, muito rural, muito iletrado, que vai ouvindo promessas, muitas vezes em segunda mão porque a eletricidade e a televisão há 40 anos ainda não tinha chegado a todo lado, acredita num d. Sebastião reaparecido.
como dizes foi-se tratando de tudo, por alguns, para alguns.
não se pensou no todo que é o nosso portugal e uma parte, uma grande parte, da população ficou de fora.
só recentemente, já no século XXI, e porque a europa ou exigiu, é que houve preocupação em aumentar as habilitações da população portuguesa (uma vergolha o número de pessoas sem concluir o Ensino Básico - já para não falar dos analfabetos - recordo: sec XXI, pais (dito) desenvolvido.
Aceito que cada um de nós tem muita responsabilidade na sua participação cívica. mas não esqueçamos quem nunca teve "tempo" e "capacidade" para compreender do que se trata.
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De Sarin a 24.01.2019 às 09:43

Exactamente porque não se promove o debate, não se fala nos temas, quem não sabe continua sem saber e é sempre um alvo fácil da manipulação. Daí às ovelhas no matadouro é um pulinho...


Concersarmos sobre estas matérias  descomplicadamente nos cafés, no "intervalo do cigarro" no trabalho, à refeição com os mais novos e mais velhos, ajuda a suprimir a lacuna da falta de formação cívica. Acredito que somos o que aprendemos e o que queremos aprender.

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