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O Holofote 5 incide sobre o Poder Executivo. Os Governos, da República e Regionais, e as Autarquias.

Mas também incide nas relações que existem entre os cidadãos e quem nos governa, sendo fundamental analisarmos a forma como comunicamos. É esta que, antes de todas as outras matérias, iluminará o meu texto.

A pandemia que nos mantém confinados expôs várias fragilidades, uma delas o quão vulneráveis ficamos quando não nos podemos dirigir aos serviços: às repartições do Estado, às Escolas, quando até temos receio de ir ao centro de saúde. Expôs quão vulneráveis ficamos quando dependemos da comunicação social e das redes sociais para saber o que se passa lá fora no nosso país.

Num holofote anterior, falei da RTP e disse «Bem sei que tudo o que menciono acima se encontra disponível na Internet, mas a Internet é um canal distinto da radiotelevisão, e quer queiram quer não ainda há muitos info-excluídos - uns porque não têm possibilidade ou capacidade e outros porque não querem, "já não estão para isso" que as rotinas são uma opção de cada um.»

Neste momento as rotinas foram alteradas, incluindo as dos info-excluídos - que, com as rotinas alteradas e confinados, continuam a ser info-excluídos, excepção para um ou outro mais afoito respaldado num familiar. 

O Poder Executivo, o Governo mas também as autarquias, tem de comunicar aos cidadãos as suas decisões, as suas orientações, e é fundamental que a Direcção-Geral de Saúde faça chegar a mensagem a todos os cidadãos. Por muito que os sítios institucionais apresentem documentos e vídeos de divulgação, continuaremos a ter uma parte da população que não os consultará. Uns porque não querem, outros porque não podem. Resta-lhes a rádio e a televisão e os jornais - mas os jornais só vêm ter a casa num plano de assinatura e quem anda na rua pouco se chegará aos quiosques nesta altura.

Resta-lhes a rádio e a televisão para se informarem, para se entreterem, para se manterem ligados ao mundo - a ligação possível, pela imagem e pelo som. A alguns, a televisão servirá, até, para manter alguma rotina de estudo.

Pergunto-me como seria se não tivéssemos uma rádio e uma televisão de serviço público, canal preferencial  para o Poder Executivo comunicar com estas pessoas... um canal (na realidade, vários) sub-aproveitado e longe de cumprir cabalmente a sua missão de serviço público - mas disponível para, numa situação como a que vivemos, ter a programação reconvertida ao serviço do Ministério da Educação. Ou melhor, dos alunos. Um serviço possível.

Todos os dias tem saído legislação emanada do Governo. Porque não aproveitar a rede de canais existentes (televisão e rádio) para comunicar de forma clara os diplomas que são produzidos e aplicados? Não uma mera notícia, mas verdadeiros fóruns onde quem está em casa possa perceber as deliberações, as medidas e as suas aplicações?

Os info-excluídos estão dependentes dos serviços noticiosos dos canais nacionais, sejam rádiofónicos, televisivos ou papel-jornal. Grande parte deles, atrevo-me a adivinhar, não terá sequer canais alternativos, recorrendo à TDT, e não terá acesso a jornais diários a não ser em cafés e bibliotecas - que, nesta altura estão fechados. Muito a propósito, relembro a intervenção de Clara de Sousa no 5 para a Meia Noite, evidenciando as diferenças entre os serviços noticiosos de cada canal.  

Como seria se um Governo dependesse exclusivamente de privados para comunicar com esta parte da população? 

Também a propósito, foi agora divulgado que o Governo adquiriu espaço de publicidade em órgãos de comunicação social para, exactamente, poder divulgar as suas orientações ao maior número de cidadãos. Não comentarei o facto, fica apenas a indicação de que a necessidade da comunicação directa do Governo aos cidadãos existe e foi identificada.

 

Claro que, quando escrevo "o Governo comunicar", refiro-me a uma comunicação unilateral. Mas nós, cidadãos, também temos de comunicar com o poder executivo. A segurança social, as finanças, a saúde, a câmara municipal... e se, além de tudo isto, quisermos comunicar directamente com o Primeiro-Ministro? Sim, os info-excluídos não terão tal possibilidade. Então, talvez que o computador e a Internet sejam bens tão essenciais para a democracia como a água, a energia e o saneamento básico são para o desenvolvimento das sociedades.

 

na imagem, ENIAC, o primeiro computador do mundo (criado em 1946)

 

Nota 1. Há a possibilidade de que algumas das medidas adoptadas com este confinamento se mantenham depois de abertas as portas. E talvez este confinamento nos faça repensar a forma como comunicamos com o Estado, personificado aqui pelos agentes do Poder Executivo.

 

Nota 2. Como seria tal comunicação se houvesse canais regionais de televisão e se as rádios regionais fossem menos sub-aproveitadas pelos poderes executivos nacionais e locais na hora de recolherem informação e divulgarem medidas? Um dia sou capaz de voltar ao tema.

Por agora, fiquem bem e obrigada por terem voltado connosco.

 


2 comentários

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De Eduardo Louro a 19.04.2020 às 20:32

Referes-te a serviço público de televisão e a cidadania. E à democracia a funcionar num sistema aberto e transparente. A realidade das audiências, dos usos de manipulação e abusos de propaganda, infelizmente empurra tudo isso para as fronteiras da utopia.  
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De Sarin a 19.04.2020 às 22:23

Por isso defendo também a independência da RTP face ao Poder Executivo e defendo as televisões regionais - no texto anterior e nos próximos :)
Aqui, quis mesmo salientar a necessidade da existência de canais de comunicação diversos e a importância da internet como canal privilegiado para o cidadão comunicar com o Estado.

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